Momentos
Há coisas que não se esquecem. Em tudo. No futebol há jogos que nunca se vão esquecer. Deste Europeu, há dois: contra Espanha e contra Inglaterra.
Foi uma alma do tamanho do mundo: uma avalancha intensa e infernal de arte, num querer inspirado de estrelas que desceram dos céus. Foi um acelar intenso dos corações que acreditavam que o sol também pode repousar um pouco no cimo de uma árvore. Foi um grito, dois gritos, três gritos de alegria de uma alma tão grande como a árvore mais velha da floresta. Foram abraços feitos de correntes prateadas como o espelho da lua no mar. Foram punhos cerrados num sofrimento acabado de se libertar como um passarinho de uma gaiola de palha. Foram olhos brilhantes, húmidos como o orvalho da manhã, alegres como os saltos dos peixes nas ondas que rebentam. Foram momentos tão lindos, daqueles que nos enchem o espírito, nos encantam e fazem acreditar que tudo é possível. Foi aquele pontapé do Nuno cheio de intenção que só acabou no fundo das redes que nos prendiam á terra e nos fizeram subir ao céu. Foram aquelas luvas despidas e caídas na relva, numa atitude que não se explica mas se entende, num gesto, não de raiva, mas de uma profunda emoção. Foi aquele tiro sublime de a poucos minutos do fim de um doloroso prolongamento. Mas que nos fez viver. Foi aqueles toque cauteloso, um gesto de poeta, que moralizou milhões e deitou pelo chão a cruz vermelha sobre o fundo branco. Que dias lindos e memoráveis. Que sonho bonito. É talvez por isso que continuo com os olhos cheios de lágrimas.
Publicado por spiritualized em
12:07 PM
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