As Ondas do Mar
julho 2004
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   As ondas são como a vida. Vão e vêm, calmas ou violentas. Rebentam na areia, que, no fundo, não é mais do que o nosso próprio mundo, sempre à espera de um abanão...

julho 05, 2004


Momentos


Há coisas que não se esquecem. Em tudo. No futebol há jogos que nunca se vão esquecer. Deste Europeu, há dois: contra Espanha e contra Inglaterra.

Foi uma alma do tamanho do mundo: uma avalancha intensa e infernal de arte, num querer inspirado de estrelas que desceram dos céus. Foi um acelar intenso dos corações que acreditavam que o sol também pode repousar um pouco no cimo de uma árvore. Foi um grito, dois gritos, três gritos de alegria de uma alma tão grande como a árvore mais velha da floresta. Foram abraços feitos de correntes prateadas como o espelho da lua no mar. Foram punhos cerrados num sofrimento acabado de se libertar como um passarinho de uma gaiola de palha. Foram olhos brilhantes, húmidos como o orvalho da manhã, alegres como os saltos dos peixes nas ondas que rebentam. Foram momentos tão lindos, daqueles que nos enchem o espírito, nos encantam e fazem acreditar que tudo é possível. Foi aquele pontapé do Nuno cheio de intenção que só acabou no fundo das redes que nos prendiam á terra e nos fizeram subir ao céu. Foram aquelas luvas despidas e caídas na relva, numa atitude que não se explica mas se entende, num gesto, não de raiva, mas de uma profunda emoção. Foi aquele tiro sublime de a poucos minutos do fim de um doloroso prolongamento. Mas que nos fez viver. Foi aqueles toque cauteloso, um gesto de poeta, que moralizou milhões e deitou pelo chão a cruz vermelha sobre o fundo branco. Que dias lindos e memoráveis. Que sonho bonito. É talvez por isso que continuo com os olhos cheios de lágrimas.



Publicado por spiritualized em 12:07 PM | Comentar (2)

Apito final?


Um apito. Um simples apito chilreou o fim de um sonho lindo. Desvaneceu-se uma alma do tamanho do mundo, um querer e uma vontade capazes de ultrapassar tudo e todos, uma união que provou haver um país que se sabe organizar, que se sabe unir por causas comuns, que podia fazer um país melhor em muito pouco tempo. Um apito soou e cairam de joelhos por terra, calaram-se as vozes que durante tantos dias gritaram tão alto que Zeus, dos céus, se incomodou. Um último apito. Uma saudade imensa que um evento que acaba, de um colorido multicultural que nos deixa e que deixa também um país mais pobre, com menos línguas e alegria. Saudade. Isso mesmo. Um apito que fez desmoronar um sonho que ganhar aquilo que nunca pareceu possível e depois apareceu aos olhos de um povo de um modo tão óbvio quanto enorme era o tamanho daquela alma. Um apito e um alemão acabou com um jogo onde se jogava um sonho que tinha feito tantos acordar com confiança, boa disposição, querer. Um apito que por pouco nos calou de tristeza de não ter chegado só um pouco mais além, um pouco mais perto do Olimpo que consagrou uma selecção que, organizada, soube retirar a alegria de quem só sabe jogar bem em desafios com caraterísticas dos grandes épicos desportivos de sempre. Um apito que nos calou por minutos, que nos inundou os ohos de lágrimas embrulhadas em bandeiras, de corações quentes e vermelhos que fizeram um país muito mais quente durante 22 dias. Um apito e o jogo acabou. Não ganhámos. Mas estou orgulhoso. Estes jogadores serão sempre campeões. Este povo poderá sê-lo. Sempre que quiser.



Publicado por spiritualized em 10:41 AM | Comentar (0)